Construímos material de pronúncia para trinta e uma combinações de línguas, e isso tem um efeito secundário curioso: começamos a ver que cada língua materna chega ao alemão com um terreno diferente. Não melhor nem pior — diferente.
O português chega bem servido. E a primeira boa notícia aparece logo no sítio mais aborrecido de todos: o alfabeto.
Se já tentaste aprender os nomes das letras em inglês, sabes o inferno que é. Em alemão, os nomes das letras são quase decalcados do português: bê, dê, ê, pê, tê. Praticamente não tens de reaprender nada. Exceto em dois sítios — e esses dois sítios são exatamente os que usas quando sopras o teu apelido ao telefone.
Os nomes das letras, com aproximação portuguesa
| Letra | Nome alemão | Aproximação |
|---|---|---|
| A | /aː/ | á |
| B | /beː/ | bê |
| C | /t͡seː/ | tsê |
| D | /deː/ | dê |
| E | /eː/ | ê |
| F | /ɛf/ | éf |
| G | /ɡeː/ | guê (não «jê») |
| H | /haː/ | há (com o h soprado) |
| I | /iː/ | i |
| J | /jɔt/ | iót |
| K | /kaː/ | ká |
| L | /ɛl/ | él |
| M | /ɛm/ | ém |
| N | /ɛn/ | én |
| O | /oː/ | ô |
| P | /peː/ | pê |
| Q | /kuː/ | ku |
| R | /ɛʁ/ | ér (mas o r no fim de sílaba enfraquece para /ɐ/: soa quase «éa») |
| S | /ɛs/ | és |
| T | /teː/ | tê |
| U | /uː/ | u |
| V | /faʊ/ | fau |
| W | /veː/ | vê |
| X | /ɪks/ | ics |
| Y | /ˈʏpsilɔn/ | üpsilon |
| Z | /t͡sɛt/ | tsét |
Faltam quatro: Ä /ɛː/, Ö /øː/, Ü /yː/ e o ß, que se chama Eszett ou scharfes S e vale um «ss».
A armadilha: o V e o W estão trocados
Olha outra vez para as duas linhas a negrito. Em português, V chama-se «vê». Em alemão, «vê» é a letra W. O V chama-se «fau» — e lê-se como um f.
Isto não é uma curiosidade académica. É a razão pela qual o senhor dos correios escreve Wasconcelos. Soletraste «vê», e ele ouviu exatamente o que disse.
A palavra que resume a regra inteira é a mais previsível possível:
Volkswagen = /ˈfɔlksˌvaːɡn̩/ — «fólks-váguen». O V é um f, o W é um v. Uma palavra, as duas regras.
O mesmo nas palavras alemãs de raiz: Vater diz-se «fáter», viel diz-se «fil», vier diz-se «fír». E o W é sempre v: Wasser diz-se «vásser», Wein diz-se «vain».
Uma ressalva honesta: nos estrangeirismos o V volta a valer /v/ — Vase, Villa, Klavier, November, Vitamin. A regra prática é essa: palavra alemã de raiz, o V é f; palavra importada, o V é v.
Três letras que mudam de som, não de nome
J lê-se /j/, como o i de «pai». Ja é «iá», Jahr é «iár». Nunca o /ʒ/ de «jogo».
Z lê-se sempre /t͡s/. Zeit é «tsait», zehn é «tsên». Nunca um z português.
H no início de palavra é um sopro verdadeiro, /h/ — e esse é o som que o português não tem de todo. Em Haus, Hund, hallo, o h ouve-se. Já dentro da palavra, o h é mudo e só serve para alongar a vogal anterior: gehen, Jahr, Uhr.
As palavras alemãs que já dizes — mal
Estas já andam na tua boca. Nenhuma está a sair bem:
| Palavra | Pronúncia | Soa a |
|---|---|---|
| Zeitgeist | /ˈtsaɪtɡaɪst/ | tsáit-gaist |
| Gestalt | /ɡəˈʃtalt/ | gue-chtált |
| Spitz | /ʃpɪts/ | chpits |
| Waffel | /ˈvafl̩/ | vá-fel |
| Deutschland | /ˈdɔʏtʃlant/ | dóitch-lant |
As duas últimas regras escondidas aqui valem centenas de palavras:
- sp- e st- no início de sílaba leem-se /ʃp/ e /ʃt/. Daí Gestalt e Spitz. E daí Stadt («chtat»), Sport («chport»), sprechen («chpréchen»).
- ei lê-se /aɪ/ («ái») e ie lê-se /iː/ («i» longo). São o par que toda a gente troca: Zeit é «tsait», mas Liebe é «líbe». Não há atalho nem regra de letra: são dois dígrafos a decorar, e o perigoso é o ie — em português lês duas vogais («li-e-be»), em alemão é um i só, comprido.
Teste para hoje: grava-te a soletrar o teu apelido em alemão e ouve passado um minuto. Se disseste «vê» para um V, acabaste de escrever um W. Ao telefone, os alemães resolvem isto com uma tabela de soletração — desde 2022 a oficial usa nomes de cidades: Aachen, Berlin, Chemnitz, Düsseldorf.
O que vale a pena levar daqui
- Os nomes das letras alemãs são amigos do português — bê, dê, ê, pê, tê saem de graça. O alfabeto alemão é muito menos hostil do que o inglês.
- V = f, W = v, J = i, Z = ts, H sopra. Cinco trocas, e cobres a maior parte dos acidentes.
- sp- e st- no início são «chp-» e «cht-» — é a regra que transforma Gestalt em «guechtált».
Nada disto se fixa a olhar para tabelas: são sons, e sons só entram pela boca. No Prophora, o nível A0 do curso de alemão começa precisamente aqui — nomes das letras, sons das letras, com pontuação da tua pronúncia à medida que falas. Experimenta já com a palavra mais injusta de todas: Volkswagen.