Toda a gente repete a mesma frase: o alemão é difícil por causa da pronúncia. Palavras compridas, sons guturais, aquilo tudo.
Para quem fala português, isso está quase ao contrário. Em termos de sons, o português é uma das línguas maternas mais bem equipadas da Europa para atacar o alemão. O que te vai custar está noutro sítio — e começa já no A1.
O que o português te deu de graça
O R alemão. O /ʁ/ de rot, Reise, fahren é um r de garganta. É exatamente o teu rr de «carro», o r de «rua». Um espanhol, um italiano ou um húngaro passam meses a tentar tirar o r da ponta da língua. Tu já o tens.
O «ch» de chave. O /ʃ/ está em todo o lado: schön, Schule, e sobretudo em Stadt e Sport, onde o st- e o sp- se leem «cht-» e «chp-». Como em português europeu o s final já é «ch» («escola»), a tua boca faz este grupo sem pensar.
O s sonoro. Sagen, Sonne, lesen levam /z/. Para ti é o s de «casa». Para um espanhol é um pesadelo.
O -er final. Esta é a grande, e ninguém a menciona. O alemão termina milhares de palavras em -er, e esse -er não é um r nenhum: é a vogal /ɐ/. Mutter, Vater, besser acabam em [ɐ] — exatamente o a final de «cama». O português europeu reduz vogais átonas o dia inteiro, e por isso já produzes este som exato, de borla. Quem fala espanhol, italiano ou português do Brasil diz «mutter» com um e cheio e um r à mistura, e denuncia-se à primeira frase.
Mas delimitemos bem a vantagem, porque ela acaba aqui: o -e final de bitte, Danke, Reise é /ə/, e esse já não te sai de graça. O teu -e átono («noite», «tarde») é mais fechado do que o alemão e, sobretudo, o português europeu costuma apagá-lo. O risco não é dizeres o som errado — é não dizeres som nenhum, e bitte sair «bitt».
As vogais nasais. Vantagem rara, mas sejamos honestos: o alemão só tem nasais em empréstimos franceses (Restaurant, Orange). Vale cinco palavras — as outras vantagens valem a língua toda.
O que te vai custar mesmo
Três géneros, e nenhum coincide. O conceito de género não te é estranho — tens o e a. O problema é que o alemão tem um terceiro (das) e que a tradução dos outros dois não se transfere:
| Português | Alemão |
|---|---|
| o sol | die Sonne (f) |
| a lua | der Mond (m) |
| a mesa | der Tisch (m) |
| o leite | die Milch (f) |
| a água | das Wasser (n) |
| o carro | das Auto (n) |
Não há atalho: o género faz parte da palavra e decora-se com ela, desde o primeiro dia.
Os casos. Quatro, e mudam o artigo e as terminações do adjetivo. Consolação concreta: tu já tens um dativo — é o lhe de «dou-lhe o livro», que em alemão é Ich gebe ihm das Buch. Nova é só a ideia de que isso marca o artigo inteiro.
O verbo que vai para o fim. Este é o verdadeiro muro, e aparece logo no A1. Em português a ordem é fixa: sujeito, verbo, resto. Em alemão o verbo conjugado é sempre o segundo elemento da frase principal, e o resto do grupo verbal atira-se para o fim:
Ich habe gestern mit meiner Schwester in der Stadt gesprochen. «Eu falei ontem com a minha irmã na cidade.»
O particípio espera pelo fim da frase. E nas orações subordinadas o verbo conjugado vai todo para o fim: …weil ich keine Zeit habe. Não é uma regra a memorizar — é um reflexo a reconstruir, e demora.
Os números ao contrário. 21 é einundzwanzig, «um-e-vinte». E 555 é uma palavra só: fünfhundertfünfundfünfzig. Ao telefone, com um IBAN, isto dói.
As três coisas que te denunciam
Na pronúncia sobram-te poucos problemas, mas são teimosos:
- Não aspiras o p, t, k. Em alemão são /pʰ tʰ kʰ/, com um sopro a seguir. Sem o sopro, Peter soa a «Beter» e Tag soa a «Dag». Não é sotaque, é outra palavra.
- Não tens ö nem ü. schön e fünf não existem na tua boca — e o ü ainda aparece três vezes em fünfhundertfünfundfünfzig.
- O teu l é escuro. O l português é velarizado («mal»); o alemão é claro e leve: viel, Milch, wohl. É subtil, mas é o que faz um alemão perguntar «de onde és?».
O que vale a pena levar daqui
- A pronúncia é a tua vantagem, não o teu problema — tens o r, o /ʃ/, o /z/ e o -er de borla (o -e final é que não).
- O que custa é gramatical: género sem correspondência, quatro casos e o verbo no fim.
- Na pronúncia só três coisas te traem: o sopro no p/t/k, o ö/ü e o l escuro.
Vale a pena treinar essas três com retorno imediato, em vez de as repetir mal durante anos. É literalmente o que o Prophora faz: falas, e ele diz-te onde é que te desviaste — a gramática encontra-se em qualquer livro, a tua pronúncia não a ouve ninguém por ti.