Há uma pergunta que aparece sempre, e é a mais honesta de todas: como pronunciar «ich» em alemão. Honesta porque ich é a primeira palavra que aprendes e, ao mesmo tempo, aquela em que é mais fácil denunciares-te.
A resposta curta tem duas partes. A primeira é que o ch alemão não é um som, são dois. A segunda é que já fazes um deles todos os dias e nunca ninguém te disse.
A regra: olha para a letra anterior
O alemão escreve ch para dois sons distintos, e o que decide é a vogal que vem antes.
| Depois de… | Som | Chama-se | Exemplos |
|---|---|---|---|
| a, o, u, au | /x/ ~ /χ/ | ach-Laut | Bach, doch, Buch, auch, Nacht, machen |
| e, i, ä, ö, ü, ei, eu, äu, e depois de consoante | /ç/ | ich-Laut | ich, nicht, Milch, durch, echt, Bücher |
| em -chen (diminutivo) | /ç/ | ich-Laut | Mädchen, Brötchen |
| em -ig no fim da palavra | /ɪç/ | ich-Laut | wichtig, zwanzig, König |
A demonstração mais limpa da regra é uma palavra só, no singular e no plural: Buch /buːx/ mas Bücher /ˈbyːçɐ/. Muda-se a vogal, muda-se o som do ch.
O ach-Laut: já o dizes em «carro»
Aqui está a surpresa. O /χ/ alemão depois de a, o, u é uma fricativa de úvula — produzida no fundo da garganta, no mesmo sítio exato onde fazes o rr de «carro» e o r de «rua».
A única diferença é que o teu é sonoro e o alemão é surdo.
Faz isto agora: diz «carro» e prolonga o rr durante dois segundos. Depois repete, mas desliga a voz a meio — sussurra o rr sem parar de soprar. Esse chiado áspero que te sobra na garganta é o ach-Laut. Passa dali diretamente para Bach, Nacht, auch.
Quem fala inglês ou italiano leva semanas a chegar a este som (um espanhol não — a jota de jamón é precisamente este som). Tu chegas lá num minuto, porque não tens de aprender um sítio novo na boca — só tens de tirar a voz de um sítio que já conheces.
O ich-Laut: sorri enquanto o dizes
O /ç/ é o difícil, e a razão é simples: o português não o tem, mas tem um vizinho perigoso. Vais ser puxado para o /ʃ/ de «chave», e a palavra ich vai sair «ich» à portuguesa.
A diferença física é esta:
- No /ʃ/ de «chave», os lábios avançam e arredondam-se, e a língua está recuada.
- No /ç/ alemão, os lábios estão esticados, como num sorriso, e a língua está onde está no i de «fio» — alta e à frente.
Portanto: põe a língua na posição do i, abre um sorriso, e sopra sem voz. É um i sussurrado com força. Não mexas a língua para trás.
E porque é que isto importa, se toda a gente te percebe? Porque há pares em que não percebe:
| Com /ç/ | Com /ʃ/ |
|---|---|
| Kirche /ˈkɪʁçə/ — igreja | Kirsche /ˈkɪʁʃə/ — cereja |
| mich /mɪç/ — me | misch /mɪʃ/ — mistura! |
Sejamos justos: meia Alemanha também troca estes sons. Em Berlim ouves ick, na Renânia ouves isch. Vais ser compreendido. Mas são sotaques regionais marcadíssimos, e num estrangeiro leem-se simplesmente como erro.
Quando o ch não é ch nenhum
Faltam dois casos, e um deles é precisamente a palavra que toda a gente procura:
-chs- lê-se /ks/. Nada de garganta. Dachshund diz-se /ˈdaksˌhʊnt/, «daks-hunt» — e, já agora, em alemão quase ninguém chama isso ao animal; diz-se Dackel. A mesma regra em sechs («zeks»), Fuchs («fuks»), wachsen.
ch- no início de palavra depende da origem: nas palavras gregas vale /k/ — Chor («kôr»), Christ, Charakter, Chaos («káos»). Nas francesas vale /ʃ/ — Chef («chef»), Chance.
E um bónus que resolve uma dúvida frequente: leite é Milch /mɪlç/. Vem depois de um l, portanto é ich-Laut — sorriso, não «milch» à portuguesa.
O que vale a pena levar daqui
- Dois sons, uma regra: depois de a/o/u/au é o áspero de garganta; em todo o resto é o fino e sorrido.
- O áspero sai-te de graça — é o teu rr de «carro» sem voz.
- O fino é o que tens de treinar, e o teste é Kirche contra Kirsche. Se soarem iguais, ainda estás a dizer /ʃ/.
Estes dois sons não se aprendem a ler sobre eles — aprendem-se a dizê-los e a ouvir alguém dizer «ainda não». O curso de alemão do Prophora pontua a tua pronúncia frase a frase desde o A0, e o par Kirche/Kirsche é dos primeiros a aparecer, precisamente porque é o sítio onde quase todos os falantes de português escorregam.